
Universidade Belas Artes e Igualdade Racial promovem encontro com lideranças indígenas de Guarulhos
Terça, 14 de Julho de 2026 - 08:10
A aproximação entre a comunidade acadêmica e os povos indígenas marcou a realização do Entoa, evento idealizado por estudantes do 3º semestre de Publicidade e Propaganda da Universidade Belas Artes e realizado em parceria com a Subsecretaria da Igualdade Racial de Guarulhos. Desenvolvido como parte de um projeto integrador, o encontro reuniu lideranças indígenas da cidade no final de maio, no campus Paraíso (São Paulo), para compartilhar saberes, promover reflexões sobre identidade e cultura e incentivar a valorização do artesanato e da gastronomia tradicional.
Segundo a estudante Penélope Scialla, de 23 anos, a proposta surgiu a partir do desafio de desenvolver um evento com foco em uma questão social. Em vez de seguir um caminho convencional, o grupo decidiu construir a iniciativa em parceria com os próprios indígenas.
“Queríamos sair da zona de conforto. No início não sabíamos exatamente como seria o projeto. Participamos de uma reunião de alinhamento no Adamastor para entender quais eram as demandas das lideranças indígenas. Foi nesse encontro que percebemos as dificuldades que eles enfrentavam para divulgar seus próprios eventos culturais e decidimos trazer esse espaço para dentro da universidade”, explica Penélope.
Antes do evento os estudantes visitaram a Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, no Cabuçu, para uma vivência com a comunidade e diálogo com indígenas em contexto urbano no bairro Cidade Soberana. O objetivo era compreender diferentes realidades e construir uma programação baseada na escuta e nas necessidades apontadas pelos participantes.
O resultado foi o Entoa, nome inspirado em uma expressão utilizada pelos próprios indígenas, e uma identidade visual criada pelos próprios alunos. “Não queríamos apenas criar um espaço para venda de artesanato, mas promover reflexão. A maior parte dos alunos da faculdade não tem contato com essa realidade, então foi uma oportunidade de aproximar esses universos”, destaca a estudante.
O evento
A programação contou com apresentações culturais, palestras, comercialização de artesanato, comidas típicas e arrecadação de alimentos para as comunidades indígenas participantes. A abertura e o encerramento foram marcados pelo ritual sagrado Toré, seguido pela degustação de pratos típicos indígenas.
“Na nossa palestra ecoamos a voz da matripotência, que significa o poder ancestral das mulheres indígenas, a força do protagonismo feminino na preservação das nossas culturas. Mais do que falar do passado, essa presença é um marco de retomada e visibilidade para o meu povo, o Puri. Nossa ancestralidade está viva, é urbana e pulsante”, comenta Day Poyonawa.
Palestras
As palestras abordaram diferentes aspectos da cultura, da identidade e da educação ancestral, como cultura indígena e geração de renda, territórios e identidade dos povos e a ancestralidade como base para políticas educacionais contemporâneas. “Foram momentos muito importantes, uma organização feita com muito respeito à cultura dos povos indígenas, com carinho e comprometimento. Usamos todo o nosso conhecimento em prol de um momento que trouxe para nós um fortalecimento étnico e ancestral e uma comunhão mútua entre todos os povos originários ali presentes”, destaca Alex Kaimbé.
De acordo com Penélope, todas as palestras tiveram lotação máxima na biblioteca da universidade. O artesanato também teve boa aceitação entre o público, proporcionando resultados positivos para os expositores. “Ficamos muito felizes porque eles se mostraram satisfeitos com as vendas. Também arrecadamos alimentos para as comunidades. Foi emocionante ouvir deles que nunca imaginaram estar em uma faculdade desse porte, porque muitas vezes essas portas não estão abertas para os povos indígenas”.
Como forma de reconhecimento pela participação, a universidade entregou certificados às lideranças indígenas, documento que também pode contribuir para fortalecer o currículo dos palestrantes e ampliar as oportunidades de participação em novos eventos. “Somos um povo que sofreu muito ao longo de séculos e continuamos sofrendo, mas devemos lutar para que não percamos nossa essência e só tenho a agradecer pelo evento. É fundamental e muito gratificante para nós sermos reconhecidos”, afirma Rosa Pankararu.
Para Penélope, a experiência deixou um legado que vai além da atividade acadêmica. Uma das sugestões apresentadas pela professora orientadora é transformar as visitas às aldeias em uma atividade permanente da universidade como forma de incentivar vivências, ampliar o diálogo intercultural e oferecer horas complementares aos estudantes. “A gente aprendeu que o mais importante era escutar. Foi uma experiência transformadora para todos nós e esperamos que esse contato continue acontecendo nos próximos anos”.
A Universidade Belas Artes agradece às alunas Kauany Archanjo, Larissa Müller, Biatriz Pek, Ester Miada e Lídia Ribeiro, além da professora responsável Maria Cecília Carboni, pelo apoio na execução do projeto.
Imagens: Divulgação/Belas Artes
14/07/2026